" O-onde ... es-tás ... ? " , perguntou a trémula voz da menina da rua .
Da janela , via-a a tremer . Cheia de frio . Via os seus lábios roxos , as suas mãos secas , os seus dedos vermelhos , a sua doce cara inocente , pálida . " Estou aqui ! " , respondeu uma voz , rouca , aborrecida , vinda do fundo . A menina voltou-se . Não viu ninguém . A já familiar voz voltou a dirigir-lhe a palavra .
" Aqui ! " . Desesperadamente , a menina olhava para todos os lados . Ninguém . A rua estava vazia . Sentia o vento a querer-me dizer algo . As folhas a baterem na janela , como se isto fosse um sinal . Olhando para a rua , continuava a avistar a menina dos cabelos loiros , encaracolados e delicados .
" Não " , disse a mim própria , " não a posso deixar ali assim . " E então , já fora tarde de mais . Quando voltei a olhar para o lado exterior , já a menina tinha desaparecido . Foi então , que sentira uma lágrima quente a escorrer-me pela cara . Nunca iria esquecer aquele olhar inocente , aquele cabelo delicado que , quando o vento soprava , se tentava deslocar com este , as suas mãos macias que , atingidas pelo frio , secas e pálidas tinham ficado . Não me irei esquecer do sorriso intenso que mesmo com a tristeza , por vezes , se avistava na sua cara doce . Parei para pensar . Como é que pude deixar chegar isto até tal ponto ? Será que ainda a posso salvar ? " Tarde de mais " , falava a voz da verdade .
Voltei a olhar para a rua , e sentia saudades de ver a menina dos olhos verde-claros . Parece que ainda sentia o lindo olhar dela a dirigir-se à minha janela , os lábios a formarem-se num sorriso , e a mão de esta a levantar-se , devagarinho , para me acenar . E eu , sabendo que ninguém estava lá fora , sorri , como todos os dias o fizera ao avistá-la . E assim , recordava todos os dias a menina da rua , como se ainda estivesse a vê-la pela janela do meu quarto .